O tipo mais completo do pregador do século XVII é o padre Vieira, cuja personalidade se envolve nas intrigas diplomáticas para a defesa do trono de D. João IV ou para a deposição de D. Afonso VI da soberania a bem de seu irmão D. Pedro II. Nasceu em Lisboa em 6 de Fevereiro de 1608, acompanhando seus pais Cristóvão de Oliveira Ravasco e D. Maria de Azevedo para o Brasil em 1615; aí na cidade da Baía de Todos os Santos, entra aos oito anos para os estudos menores do Colégio dos Jesuítas. A sua vivacidade, não escapou àqueles pedagogos, entrando aos quinze anos no noviciado da Companhia de Jesus, fazendo passados dois anos votos solenes em 1625.
Maravilhados com a sua loquela, encarregaram-no do ensino da Retórica e pelas subtilezas formalistas confiaram-lhe o curso de teologia dogmática. Em 1641 voltou a Portugal na comissão que vinha declarar a D. João IV, que o Brasil aderira à restauração nacional, acompanhando D. Fernando de Mascarenhas, filho do governador geral. Vieira, já celebrado pelo seu extraordinário Sermão pregado em 1640 pelo triunfo contra os Holandeses, revelou-se em Lisboa um assombroso pregador e, deslumbrando a corte, entrou na intimidade do paço. D. João IV fê-lo seu conselheiro privado, comunicando-lhe a cifra secreta dos seus embaixadores, e confiou-lhe as missões mais reservadas.
Vamos resumir desta obra magistral de João Francisco Lisboa, Vida do P. Vieira, as linhas nítidas de tão grande figura, que nos põe a descoberto o plano da Companhia de Jesus na questão da independência de Portugal. Pelo papel histórico do Padre Vieira conclui-se que foi – exclusivamente jesuítica – para quem «toda a pátria é uma terra estrangeira, e toda a terra estrangeira uma pátria». Trabalhou para os interesses da Companhia, à qual, depois de estabelecida a paz entre a França e a Espanha, interrompida desde o século XVI, não convinha que este pequeno território de Portugal continuasse autónomo entre estas duas potências. Enquanto a Companhia de Jesus teve de lutar com Filipe II, que votava as suas simpatias à Inquisição e aos Dominicanos, convinha-lhe a ela a autonomia de Portugal como ponto de apoio da sua resistência; porém, desde que Companhia facultando-lhe o desenvolver-se por toda a Espanha, entendeu logo a Companhia abandonar Portugal ao seu isolamento, certa de que nada perdia da sua influência na península ibérica sob a unificação do governo da Casa de Áustria.
Quando pela política francesa de Sully e de Richelieu, que tendia ao enfraquecimento da Casa de Áustria, se reconheceu que a independência de Portugal era um dos meios mais seguros para realizar esse golpe, ficaram assegurados os resultados da revolução de Portugal depois da missão secreta do cônsul Mr. Saint-Pé, que aqui viera garantir um contingente militar e uma esquadra no caso de malogro da revolução nacional. Foi com este apoio e para a cooperação da política francesa que se fez a Revolução de 1640. Parecia natural que ficássemos como nação livre cultivando a aliança francesa e fortificando-nos com ela. Deu-se, no entanto, a paz entre a França e a Espanha; os jesuítas, que durante o século XVI não conseguiram estabelecer-se estavelmente em França, eram no século XVII os omnipotentes directores espirituais e temporais do Rei cristianíssimo. Portugal, que fora o quartel-general da Companhia, o campo neutro das suas operações quando estavam em hostilidade a França e Espanha, agora, que estavam conciliadas as duas nações, Portugal tornava-se um estorvo para a Companhia por causa da sua impertinente autonomia. Tal é a situação, o quadro diplomático em que nos aparece a intervenção ou acção histórica do Padre Vieira.
Quando chegou ao Brasil a notícia da Revolução portuguesa, e que a nação redimida delegara a soberania na pessoa do Duque de Bragança pelas cortes de 1641, o vice-rei da Baía, que fora nomeado pelo governo de Castela, reconheceu a independência de Portugal e mandou seu filho D. Fernando de Mascarenhas à Europa oferecer a sua homenagem ao monarca proclamado pela nação. O Padre António Vieira acompanhou o filho do vice-rei como seu hábil mentor, e nesse mesmo ano de 1641 já o jesuíta se achava junto de D. João IV propondo-lhe gigantes planos de Companhias de Comércio para a índia e Brasil à imitação das Holandesas. Por subtis sugestões assim se apoderou do ânimo de D. João IV, tendo entrada franca no paço e nas secretarias de Estado, assistindo às conferências dos ministros, possuindo a cifra dos embaixadores, e emitindo o seu parecer antes das resoluções dos tribunais. Em suma, o tíbio D. João IV, diante de tão absorvente actividade e da omnipotência dialéctica do Padre Vieira, só lhe pedia uma coisa – que não empregasse lábia! É textual. O Padre Vieira tratou de convencer D. João IV, que lhe seria impossível resistir à Espanha se esta potência se ligasse à Holanda; e que para evitar este perigo, mais seguro era, para estabilidade do seu trono e dinastia, abandonar Pernambuco e a Baía aos Holandeses, dando-se desde logo em penhor uma fortaleza no reino, fazendo a paz com eles, ficando assim a luta com a Espanha reduzida a uma guerra defensiva.
Felizmente, o Desembargo do Paço foi de opinião, que realizando-se este plano do jesuíta, sobre o qual o rei o mandara consultar, seria nem mais nem menos a perda do Brasil, e o reino de Portugal reduzir-se-ia a um território isolado, à situação de uma pequena Galiza, de incorporação fácil e inevitável. Para a Companhia de Jesus, que o Brasil fosse dos Portugueses ou dos Holandeses era isso indiferente para o vasto empório mercantil que estava ali fundando. D. João IV não pôde realizar os planos do Padre Vieira, porque por um tratado secreto reconhecera à Holanda o direito das conquistas feitas no Brasil; porque achando-se o Brasil abandonado pelo governo de Portugal às guerras dos Holandeses, as colónias portuguesas, pela sua própria energia e sob o comando dos sublimes patriotas João Fernandes Vieira e André Vidal de Negreiros, sacudiram o jugo estrangeiro, e depois de libertarem o seu território, ofereceram-se espontaneamente à obediência da metrópole, que as abandonara! O Padre Vieira mudou prontamente de política; não pôde efectuar-se a oferta de Pernambuco aos Holandeses como preço da paz, e em vez disso tratou de engenhar vários planos de casamentos principescos para assegurar a estabilidade do trono a D. João IV à custa do holocausto da nacionalidade portuguesa ou à França ou à Espanha.
Com uma missão secreta em 1643, partiu o Padre António Vieira para Paris encarregado de tratar do casamento do príncipe D. Teodósio com a filha do Duque de Longueville, vindo Condé governar Portugal corno uma espécie de Protector, e D. João IV iria ser rei do Brasil, aproveitando o acendrado patriotismo das Colónias portuguesas, que se tinham libertado dos Holandeses. Este plano, achado em um manuscrito do Arquivo da Casa do Marquês de Nisa, não chegou a realizar-se pela circunstância fortuita de a Duquesa de Longueville aparecer casada clandestinamente com Lauzan.
Sempre fértil em expedientes e com lábia, o Padre Vieira arquitectou outro plano de casamento do príncipe D. Teodósio com a filha mais velha do Duque de Orleães, Mademoiselle de Montpensier. O pai da noiva vinha tomar conta do governo de
Portugal. O Duque de Orleães, vendo os negócios de Portugal mal parados, não aceitou a proposta, alegando que tinha certos compromissos com o Pretendente de Inglaterra. Mais ainda em 1647 lhe foi proposto que ficaria o príncipe rei do Algarve, casando a infanta D. Catarina com o Duque de Beaufort. Por via do casamento desta infanta é que se entregou Bombaim à Inglaterra, que, apoderando-se logo dessa parte do império da Índia, nunca mais deixou o leilão desta nacionalidade como fiel aliada.
O biógrafo jesuíta André de Barros, conta como o Padre Vieira se achou em Roma em 1649, combinando com o jesuíta Gonzalez de Mendoza o arranjarem o casamento do Príncipe D. Teodósio com a irmã de Carlos II de Espanha, unificando-se assim as duas nações. O embaixador espanhol Duque do Infantado enfureceu-se quando o jesuíta seu adjunto lhe comunicou este plano, e ameaçou o Padre António Vieira de mandar assassiná-lo, alardeando que o seu rei Carlos II não tratava com um rebelde e que lhe
pertencia Portugal sem recorrer à indignidade de um tal casamento. Vivendo e respirando na atmosfera da intriga política, o Padre Vieira, que andava munido de plenos poderes para tratar destes casamentos reais, e como o de D. Teodósio falhara, arquitectou uma empresa: volveu-se para um projecto de casamento da infanta D. Catarina com D. João de Áustria; e por acordo com a Espanha, D. João IV passaria para o Brasil com o título de Rei. Mas o rei de Espanha não chegou ao preço; não queria dar tanto pelo reino de Portugal, e limitava-se, segundo Mr. Vicoquefort, a consentir que D. João IV ficasse Rei do Arquipélago dos Açores, ou, por último alvitre, sim plesmente rei da Sicília. Falharam todas estas intrigas em que o Padre Vieira se pôs tanto em evidência, deixando quase que a descoberto o jogo diplomático da Companhia de Jesus. Por este motivo foi mandado recolher ao Maranhão em 1650. Já no Maranhão recebeu a notícia do falecimento do Príncipe D. Teodósio em 1553, com dezanove anos de idade. A morte em seguida de D. João IV não embaraçou Vieira na elaboração dos seus antigos planos. Segundo instruções secretas de D. João IV à rainha D. Luísa de Gusmão, quando ela não pudesse sustentar a guerra defensiva contra a Espanha, devia abandonar Portugal ao invasor e fugir para o Brasil com a família real e ali fixar o trono e a Dinastia de Bragança. Em 1660, vendo D. Luísa de Gusmão que, pelo tratado dos Pirenéus entre a França e a Espanha, Portugal se achava sem apoio para a sua resistência, por conselho dos Condes de Cantanhede e de Soure, mandou ao governador de Pernambuco, Francisco de Brito Freire, que preparasse abrigo para a chegada da família real. O Padre António Vieira estava então mal visto na corte, mas é certo que esteve a pique o realizar-se o plano que tanto o preocupava.
Nas lutas tormentosas do reinado de D. Afonso VI, sob o governo do Conde de Castelo Melhor, os jesuítas foram separados da influência que sempre tinham exercido na corte. Para reaverem o ascendente perdido, trataram de demolir D. Afonso VI, e conseguiram tirar-lhe o trono e a mulher, dando-os a seu irmão D. Pedro II. Nestas intrigas preparatórias, o pretendente quase fratricida, patrocinado pela Companhia de Jesus, era denominado o Encoberto, e é a D. Pedro II que se referem as Profecias sebastianistas que os jesuítas fabricavam em nome do sapateiro Bandarra.